Cidade histórica e de soberbas tradições heróicas, bastião sempre leal na defesa da independência nacional, Pinhel constituiu outrora um dos mais seguros e arrogantes baluartes fronteiriços para a protecção do território pátrio. Foi sempre povoação muito honrada, tendo sido premiada por D. João I com o título de “Muito excelente vila de Pinhel Falcão Guarda-mor do Reino e senhorios de Portugal”.

Este brioso título, a que se juntaram diversas regalias, foi obtido em recompensa de um acto de heroísmo, de alto significado e de emoção patriótica, ocorrido durante a Batalha de Aljubarrota. Sabe-se que o combate foi muito duro e revestido de episódios de grande dramatismo. No auge da refrega, quando muitos soldados portugueses começavam a pensar na deserção, os Terços dos guerreiros pinhelenses, investindo num admirável rasgo de luta, no mais arrojado da sua valentia, assaltaram o acampamento do rei de Castela e arrebataram o seu falcão, tomando-o para brasão como símbolo da estupenda e impensável audácia cometida. Talvez seja por isso que Pinhel se empluma indiferente e altiva, magnificamente serena, em beatitude quase ideal, bela e sem problemas. Autêntica cidade-relicário, oculta no silêncio de panoramas multicolores e multiformes, beijados pelas brisas do Côa, é provavelmente a mais isolada das cidades portuguesas. Virgílio Afonso cantou-a como “flor suave de perfume campestre, estendida num belo panorama, sorrindo entre vinhedos e olivais, para as bandas do Côa poético” e que “surge como princesa da Pátria, enfeitada e inesquecível na sinfonia carinhosa dos campos que a ornamentam, leda e pura, como a singela margarida sorrindo no prado ameno de horizontes sem fim”.
Mas a Pinhel de que falamos não é só a cidade e sede do concelho do mesmo nome. É também uma freguesia com três anexas: Malta, Quinta Nova e Quintã dos Bernardos. Encontra-se a freguesia situada a nordeste do concelho, separando-a o rio Côa do vizinho concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. Localizada numa região acidentada em que predomina a encosta de grande declive, excepto a sudoeste, a altitude acusa variações bruscas entre as cotas extremas de 442 a 685 metros, sendo a média de 569 metros. A exposição é o que há de mais diverso. A média anual da temperatura deve regular os 13 graus, com a mínima absoluta a descer a 5 negativos em Janeiro, e a máxima, por vezes, a ultrapassar os 34 em Agosto. Predominam os ventos de noroeste, embora os do sul soprem com certa frequência na época das chuvas. Nem a geada nem o granizo dão prejuízos dignos de registo. O clima da freguesia pode-se considerar, dentro da Beira Serra, relativamente ameno.
Em termos geológicos, nota-se a predominância do granito. A nordeste da freguesia existe uma zona de câmbrico, estreito saliente da larga mancha que define o concelho de Figueira de Castelo Rodrigo e se alonga para aquém do Côa. Há ainda muitos terrenos com quartzite de difícil desagregação que os tornam ásperos no amanho, característica da faixa de transição entre as duas manchas geológicas.
Diversos escritores têm vindo a repetir sucessivamente que a povoação foi fundada pelos túrdulos no ano 500 antes de Cristo. Há mesmo quem faça remontar essa fundação ao ano 1500 antes de Cristo, dizendo gratuitamente que quando nesse ano os túrdulos aqui chegaram “já Pinhel constituía um florescente oppidum lusitano” (João de Almeida). Desde Herculano, o conspícuo e austero patriarca da “historiografia séria”, quase todos os historiadores têm posto em dúvida essa fundação turdetana por carecer de fundamento sério, nem sequer se baseando na tradição oral, já em si por demais inconsistente. Já o mesmo não se poderá dizer da época romana, durante a qual a povoação deve ter tido a importância que se infere dos achados de utensílios e de sepulturas, bem como dos restos da estrada que por ali passava.
Grande é também a confusão suscitada à volta do pretenso foral atribuído por D. Afonso Henriques. Pelas informações que nos deixaram os mais conscienciosos investigadores - João Pedro Ribeiro, Alexandre Herculano, Nunes Franquelim e Damião Peres - parece depreender-se que o foral do primeiro rei de Portugal, que ninguém jamais viu embora a ele se façam bastantes referências, não passa de mera fantasia. A esse respeito Baptista de Lima comentou: “são tantos os forais atribuídos a Pinhel, que prudente será aceitar o que diz Nunes de Franquelim - o foral de 1209, confirmado em 1217 e reformado em 1282”.
Estas são as datas das cartas atribuídas, respectivamente, por D. Sancho I, D. Afonso II e D. Dinis. Mas existe uma carta anterior que, segundo se crê, é o mais antigo diploma que se conhece acerca da formação do agregado humano que é hoje a cidade de Pinhel. Trata-se da carta de foro ou de povoamento concedida pelo prior e frades do Mosteiro da Ermida, em Fevereiro da era de 1229 (1191 do ano de Cristo), aos povoadores de Pinhel, e que se encontrava no Cartório do Mosteiro de S. Bento de Ave Maria do Porto. Trans-crita por Herculano nos “Portugaliae Monu-menta Histórica” (Leges et Consuetudines, págs. 481 e 541) por ela se vê que a terra, embora pertencente à coroa, como é óbvio, tinha então sido confiada, para efeitos de administração e povoamento, à tutela monástica do cenóbio de Santa Maria de Riba Pavia.
A relevância de Pinhel resultou, sobretudo, de ter sido lugar fortificado fronteiriço, reduto de alto valor defensivo da Nacionali-dade nos períodos de guerras com a nação vizinha. Foi dentro deste contexto que D. Sancho I mandou reedificar a povoação na mesma ocasião em que fez levantar o castelo de Sortelha. D. Dinis, na sequência do foral de 1282, mandou construir uma muralha defensiva, rasgada de portas e parcialmente torreada, circuitando a vila dessa época, e fez remodelar o sobranceiro castelo.
O castelo é constituído por um núcleo central, em que se destacam duas torres, remodeladas no reinado de D. Manuel I e restauradas em 1940. A localizada a norte apresenta uma janela manuelina geminada e uma gárgula gótica, com uma figura humana, e no interior uma esfera armilar no fecho do tecto. Na torre sul, que serviu de prisão, rasga-se uma janela ogival e no interior do recinto conserva-se a cisterna. Subsistem ainda duas portas de fortificação: a de Santiago e a da Vila, esta última com a sua torre defensiva transformada em torre do relógio, substituída nestas funções no século passado pela torre que hoje se vê, sobranceira à praça principal da cidade.
As guarnições do castelo estiveram em permanente alerta, entre 1396 e 1398, quando se repetiram invasões castelhanas pela Beira, já depois de Aljubarrota e da façanha dos Terços de Pinhel. Tomada e saqueada, a vila sofreu um colapso económico. As terras estavam abandonadas e as brenhas vizinhas tão cheias de bicharada que era necessário recorrer aos incêndios. D. João I procurou acudir, concedendo aos moradores, em 1400, isenção do donativo votado em Cortes, e fazendo aplicar a “Lei das Sesmarias”. Para dar incremento à terra, instituiu nela uma feira anual com franquias iguais às de Trancoso.
Em 1510, recebeu Pinhel o seu foral novo, outorgado por D. Manuel. De 1621 a 1627 foi seu juiz de fora, João Pinto Ribeiro, o grande instigador e obreiro da revolução de 1640. E novamente entrou Pinhel em acção, recebendo para isso o material de guerra necessário. O seu castelo perdera há muito a eficiência militar adequada às artes bélicas, mas o coração dos seus moradores procurou adaptar-se às dos tempos então correntes. Mais uma vez, como no passado, e como sempre, Pinhel enalteceu o seu nome.
Foi por alvará de 25 de Agosto de 1770 que D. José criou o bispado de Pinhel e elevou à categoria de cidade esta antiquíssima vila. Nesse alvará justifica-se a criação do bispado com o facto de “a disforme extensão impossibilitar, nos bispados de Lamego e Viseu, a boa administração do pasto espiritual”. Quanto à cidade, contém a carta de registo, dada em 4 de Setembro do mesmo ano, a indicação de que a sua elevação tinha por fim “permitir que aí se estabelecesse mais dignamente a Catedral da nova Diocese”. Só quatro bispos teve, porém, a diocese de Pinhel que seria extinta em 1882. Durante o bispado de D. José Mendonça Pinto Arrais, em finais do século XVIII, foi construído o Paço Episcopal, cuja frontaria, caiada, apresenta vãos, cunhais e cornijas de granito.
A antiga Sé de Pinhel, actualmente a servir de matriz, foi templo do Convento das Clarissas, fundado em 1596 por Luís de Figueiredo Falcão. Destaca-se a capela-mor, decorada com talha barroca e azulejos policromos do século XVII, onde se conservam duas pinturas quinhentistas. Do convento subsiste o portal maneirista. Nas traseiras, um jardim, com coreto ao centro, forma um balcão sobre a paisagem circundante. Fazendo, em perpendicular, conjunto híbrido com a igreja matriz, a Igreja da Misericórdia tem uma curiosa fachada: o portal gótico, decorado com vieiras, é ladeado por duas pilastras - uma encimada pelo escudo manuelino, outra pela esfera armilar. Construção quinhentista, sofreu remodelações no século passado.
A Igreja de Santa Maria do Castelo, templo gótico do século XIV, ostenta, na fachada com torre sineira, um portal de arco quebrado. O interior, de uma só nave, com altar-mor de talha barroca, guarda telas dos séculos XVI e XVII. Junto ao altar do Senhor dos Passos, um nicho abriga a imagem quatrocentista das Santas Mães, em pedra de Ançã, que se atribui a Diogo Pires, o Velho.
Destacam-se ainda, na freguesia, as igrejas de Santo António, antigo convento fundado em 1727, e a da Trindade, românica, cujo portal de arquivoltas assenta sobre capitéis. Apesar de classificado I. I. P. o abandono tomou conta deste templo que, arruinado, aguarda ansiosamente por uma intervenção das entidades competentes. Em termos de arquitectura civil, existem várias casas senhoriais dos séculos XVII e XVIII. Como exemplos de solares seiscentistas, refiram-se a Casa Grande e o Solar dos Mena Falcão. O edifício do Museu Municipal e os solares dos Metelos de Nápoles, dos Mendes Pereira, dos Cunhas Vasconcelos, constituem-se como magníficos exemplares da arquitectura setecentista.
Como símbolo das multisseculares regalias burguesas do concelho e das prerrogativas de independência jurisdicional e administrativa de que esta cidade se ufanou desde os tempos da Nacionalidade, pompeia, no meio da praça principal, o velho pelourinho de gaiola estilizada, coluna artística de grande valor, cuja silhueta constitui por si só sugestivo cartaz turístico do nobre e glorioso burgo.
Cartaz turístico será também o Parque Municipal, espaço aprazível, repleto de belos recantos de verdura, onde é obrigatório ver a famosa peça de artilharia. E do miradouro do parque obtém-se a melhor panorâmica da cidade, ficando-se com vontade de citar Virgílio Afonso: “Venha daí leitor amigo, venha visitar a cidade de Pinhel, urbe fidalga, terra de atractivos naturais e históricos, cheia de brasões e de solares que lhe atestam as honrarias do passado e lhe garantem o valor do presente, a esperança do futuro”.


Actividades Económicas: Agricultura, pecuária, indústria de calçado, serralharia civil, carpintaria, extracção de madeiras, lagares de azeite, apicultura, artefactos para a construção civil e comércio

Festas e Romarias: Corpo de Deus, Santo António (dom. mais próximo de 13 de Junho) e Senhora de Fátima (1.º dom. de Setembro)

Património: Castelo de Pinhel, igreja matriz e Igreja da Misericórdia

Outros locais: Parque florestal com miradouro, trincheira (zona do castelo) e praia fluvial na margem do rio Côa

Gastronomia: Cozido à portuguesa, enchidos de porco, cabrito assado, borrego e chanfana

Artesanato: Latoaria, cestaria em verga e tanoaria

Colectividades: União Desportiva “Os Pinhelenses”, Clube de Caça e Pesça e Associação Cultural e Desportiva de Malta

Orago: N. Sra. do Castelo

Feiras: Semanal (segunda-feira), anuais (1 de Maio e 17 de Agosto) e Feira dos Santos (1 de Novembro)


Fonte: ANAFRE



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